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  • marianadiascadastr

Sobre a natureza humana, ou seja, sobre você



Quando observamos a Natureza, é fácil concluir que todos os seres “sabem” o que fazer para seu melhor desenvolvimento. Todos se orientam de forma a viver o seu maior potencial de vida dentro das condições disponíveis. Uma árvore por exemplo cresce suas raízes de forma a encontrar a melhor estabilidade e fonte de água e alimento. As raízes de uma árvore se direcionam para a fonte de água mais disponível naquele meio. Elas contornam os objetos intrusos (árvores que crescem em estreitos canteiros em cidades) e seguem encontrando o melhor que podem para o melhor desenvolvimento / florescimento. Tudo o que é necessário para o melhor desenvolvimento de cada Ser, de cada um dos processos naturais, simplesmente acontecem espontaneamente, sem nenhuma necessidade de reflexão. A “sabedoria” necessária para cada processo já está disponível e simplesmente acontece.


Nós, humanos, sob hipótese alguma fomos deixados de fora disso. Também já temos a “sabedoria” para o melhor do nosso desenvolvimento. No entanto, temos um desafio adicional: possuímos um cérebro que produz consciência, de si e de tudo ao redor, além da capacidade de refletir, pensar, imaginar, criar, questionar, dar significados a tudo, etc.


Essa capacidade tornou-se uma grande vantagem para o desenvolvimento da nossa espécie, ao mesmo tempo que se tornou nosso próprio veneno, e veneno para todo o ambiente por onde passamos.


Criamos tantos significados, imaginamos tantas possibilidades, que acabamos perdendo a capacidade de distinguir o que é uma criação de nossa mente e o que é a natureza espontânea acontecendo através de nós.


Mas o que é natural do ser humano? O que podemos afirmar ser natureza intrínseca do ser humano?


Bom, para começar, não podemos deixar de fora as óbvias conclusões dos biólogos: queremos sobreviver e nos reproduzir. Tão óbvio que acredito que não precisamos investir muito aqui (alguém conhece alguma espécie que tem a natureza suicida? Ou que não se reproduza? Com certeza não, porque teriam desaparecido logo no surgimento do primeiro indivíduo dessa espécie peculiar). E é claro que existem, portanto, comportamentos nossos guiados pelas nossas necessidades biológicas.


A questão é que, devido à característica de nosso cérebro, nossos comportamentos vão além das questões que garantem sobrevivência e reprodução. Uma característica muito peculiar que já mencionei é a consciência de si, é a idéia de “eu” e dos “outros”, ou “eles”. Essa distinção de Eu e Ele e Nós e Eles molda a forma como nos relacionamos com o outro e nos organizamos em grupos, e a forma com que grupos diferentes se relacionam.


Essa idéia de EU, essa necessidade de uma identidade (necessidade resultante da consciência de si) molda profundamente os comportamentos de cada indivíduo. A qualidade da imagem criada desse EU determinará a qualidade do desenvolvimento do indivíduo. A qualidade da imagem formada é um resultado das experiências vividas por esse indivíduo, aprendizados sociais, e os significados que atribuiu a toda a diversidade de suas experiências.


Bom, podemos então listar agora como natureza humana:


  • Comportamentos determinados por necessidades biológicas (sobrevivência e reprodução);

  • Cérebro que produz consciência de si, gerando uma necessidade por identidade.

  • Cérebro capaz de imaginar, refletir, questionar, dar significados, etc.


Além disso, existe a denominada teoria organísmica, que diz que uma pessoa só pode ser compreendida como um todo, e não pelo estudo e compreensão de suas partes separadas. Ou seja, mente e corpo afetam um ao outro e não podem ser tratados separadamente. Um organismo também tem a característica de se autorregular, ou seja, está sempre buscando meios de se organizar, de manter a ordem de todo o seu sistema. O estado natural de um organismo é estar organizado.


Outra premissa dessa teoria é que o organismo é dotado de um impulso dominante de autorrealização, de forma a explorar suas potencialidades através da interação proativa com o meio, buscando sempre os ambientes e experiências mais apropriadas ao seu desenvolvimento e organização.


De acordo com Kurt Goldstein, um neurofisiologista considerado o expoente da Teoria Organísmica, afirma que a condição natural de uma pessoa (o organismo) se apresenta através de um comportamento ordenado, flexível e apropriado para a situação. O comportamento não natural se apresenta quando uma tarefa é imposta a uma pessoa e resulta então em um comportamento rígido, mecânico.


A partir dos conceitos da Teoria Organísmica, surgiu a Teoria da Autodeterminação Humana, em uma tradução literal de Self Determination Theory (SDT), a qual estuda a motivação e personalidade humana.


“SDT é uma abordagem dialética organísmica. Considera a realidade das pessoas como organismos ativos, com tendências evoluídas para crescer, dominar os desafios ambientais e integrar novas experiências a um senso coerente de si. No entanto, essas tendências naturais de desenvolvimento não operam automaticamente, mas requerem nutrimentos e apoios sociais contínuos. Ou seja, o contexto social pode apoiar ou frustrar as tendências naturais para o engajamento ativo e o crescimento psicológico (...). Portanto, é a dialética entre o organismo ativo e o contexto social que é a base das previsões da SDT sobre comportamento, experiência e desenvolvimento.” (https://selfdeterminationtheory.org/the-theory/)


Portanto, da SDT, podemos tirar também como natureza humana:


  • Curiosidade;

  • Atividade espontânea para explorar o ambiente, não com vista a um valor futuro, mas pelo prazer na realização da atividade em si, pelo prazer inerente à atividade (desenvolvimento de suas capacidades, competência).

  • Conexão, relacionar-se, sentir-se aceito, fazer parte de um grupo (característica também destacada por Wilson, Edward em O sentido da existência humana.

  • Autonomia (que se relaciona justamente com a questão de se autorregular/organizar, com a questão do impulso natural de autorrealização).


E por que me apoio nestes conceitos para desenvolver todo o meu trabalho?


Bom, em todos os estudos que fiz até o momento, eu vi teorias que definem humano apenas em termos biológicos/genéticos, e resumem todo o comportamento humano voltado para a sobrevivência e reprodução. De outro lado, vi teorias que querem elevar a espécie humana acima de outros animais como um ser mais especial devido à sua capacidade racional.


Eu, particularmente, vejo a coisa toda de forma mais simples: sim, somos animais racionais com suas necessidades de sobrevivência (obviamente) e, além disso, temos, como característica, a capacidade de imaginar, racionalizar, questionar, criar. Isso tudo que fazemos faz parte de nossa natureza humana.


Portanto, separar nossa capacidade racional e criativa de nossa natureza não faz sentido, tudo o que fazemos e todas as nossas capacidades fazem parte da nossa natureza. Nossas capacidades não foram criações humanas, são todas elas providenciadas pela natureza. Assim nós somos, naturalmente, criadores, questionadores, racionais. Assim como, dizer que somos especiais por isso, é outro absurdo. Afinal de contas, cada animal tem o seu “super poder”. Por que então não dizer que as aves que voam são os seres especiais da natureza, já que a natureza os escolheu para chegarem naturalmente aos céus?


Ou seja: o que é natural do ser humano? É, além de garantir sua sobrevivência e reprodução, é também questionar, imaginar, criar, explorar. Tudo isso é um movimento intrinsicamente motivado no ser humano. Parte de nossa natureza, de dentro para fora. Não somos seres reativos ao meio ambiente, somos seres exploradores, somos modificados pelo ambiente ao mesmo tempo que modificamos o ambiente. Basta olhar todas as transformações ocorridas no ambiente desde o surgimento do Homo Sapiens. Basta olhar todas as criações, benéficas ou não, realizadas pelo Homo Sapiens até os dias de hoje. Basta observar nossa curiosidade, a ponto de investir imensas quantidades de energia, tempo e recursos para mandar um robô até Marte, para quê? Explorar, conhecer, expandir, criar (de que forma a sobrevivência e reprodução se beneficiam desse tipo de investimento energético?). Como explicar as composições de Bethoven com argumentos meramente biológicos / genéticos?


“Certamente somos animais; mas também somos pessoas encarnadas, com capacidades cognitivas não partilhadas por outros animais, e que nos dotam de uma vida emocional inteiramente distinta — dependente dos processos de pensamento autoconsciente únicos da nossa espécie.”


Scruton, Roger. Sobre a natureza humana (p. 27). Editora Record. Edição do Kindle.


Em “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”, é relatado que o humano, a partir do momento que desenvolveu um cérebro capaz de “imaginar”, o homo sapiens, começou a criar sistemas de caça mais elaborados, começou a expandir a exploração de territórios, começou a explorar o ambiente para ganhar mais conhecimento sobre como a natureza funcionava, de forma a tornar suas coletas e caças cada vez mais eficientes.


Além disso, neste momento, o homem começou a criar objetos que mostram sua capacidade de criar coisas que não existem na realidade, mas sim na imaginação, como por exemplo uma peça de um ser com corpo humano e cabeça de leão.


Em 1995 foi feita uma descoberta impressionante: Uma escavação na Turquia em um sítio em Göbleki Tepe revelou esculturas enormes realizadas por caçadores-coletores, datadas de cerca de 9500 a.C. Ao que tudo indica, essas estruturas foram construídas para algum propósito cultural desconhecido pelos estudiosos. A complexidade da construção é impressionante.


Cito isso para mais uma vez apontar que o humano tem por natureza criar, explorar, e não somente para sobreviver. A capacidade de imaginação humana faz com que humanos invistam energia em atividades além da pura sobrevivência, além da pura reatividade ao ambiente.


Todos esses comportamentos corroboram com a teoria organísmica que afirma ser intrínseco ao humano criar e explorar. O homem não reage ao meio, mas o explora, cria e modifica-o. São esses os comportamentos que justamente se observam no estudo dos vestígios deixados pelo homo sapiens há milhares de anos.


E é justamente sua capacidade de imaginar e criar histórias que torna difícil elaborar uma teoria de como os homo sapiens viviam em bandos, quais eram seus costumes, hábitos... imagina-se que deveria haver uma diversidade de rituais e costumes de bando para bando, uma vez que o que determinaria como cada um destes bandos viveria são as histórias imaginadas e contadas por cada um deles.


Portanto, resumindo aqui as características da natureza humana, que vai ajudar a compreender todo o raciocínio desenvolvido a seguir.


  • Comportamentos determinados por necessidades biológicas (sobrevivência e reprodução);

  • Consciência de si, gerando uma necessidade por identidade.

  • Cérebro capaz de imaginar, refletir, questionar, dar significados, etc.

  • Curiosidade.

  • Competência: Atividade espontânea para explorar o ambiente, não com vista a um valor futuro, mas pelo prazer na realização da atividade em si, pelo prazer inerente à atividade.

  • Conexão, relacionar-se, sentir-se aceito, fazer parte de um grupo.

  • Autonomia.


E podemos ir além sobre nossa natureza. Na definição de Lothar Schafer em Infinite Potential:


“Então aqui está: os seres vivos não são especiais. Nossa natureza é a natureza do universo. Uma vez que o propósito em nós saiu da totalidade e pertence a ela, a conclusão deve ser que o propósito é uma propriedade cósmica.”


Agora, deixo aqui uma pergunta:


· Você respeita sua natureza humana na forma que vive? Ou seja, explora seu ambiente conforme escolhas realizadas com autonomia?

· Você está curioso sobre o mundo que vive? Sobre o ambiente que vive? Sobre o que faz?

· Você explora o mundo de forma a responder as perguntas feitas pela sua curiosidade?

· Você vive as experiências que deseja? É você quem está no volante da sua vida? Ou seja, como está sua autonomia nas escolhas que faz todos os dias?


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